segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

17 anos vendo Ronaldo. Obrigado, Fenômeno!

Por Igor Gonçalves

Eu vi o Ronaldo jogar. Essa frase parece simples, mas é de um privilégio que não dá para mensurar. Hoje vendo os programas esportivos, mesas redondas, jornais e etc, me veio na cabeça frases que já ouvi do meu pai, de tios, enfim, de pessoas mais velhas em relação a Pelé, Zico, Rivelino, Gérson, entre outros craques: “Tu tinha que ter visto essa cara jogar. Jogava muito”. Pela primeira vez na vida posso afirmar que acompanhei a carreira inteira de um gênio do futebol. Sim, eu acompanhei o Ronaldo em todas as suas fases. Desde o muleque magrinho e abusado no Cruzeiro, quando eu ainda era uma criança de sete anos e que começava a gostar de futebol, até já pesado e lento no Corinthians, agora já como jornalista esportivo.

Lá se foram 17 anos. E uma frase de Lédio Carmona sintetiza muito bem a passagem de Ronaldo no futebol. “Parece que nós seguimos o mesmo caminho, mas em dimensões diferentes”. Faz muito sentido. Ronaldo participou da minha formação como torcedor. Se hoje sou um apaixonado pelo futebol, certamente ele contribuiu imensamente com a infinidade de gols em toda carreira. Me lembro como se fosse hoje, da época em que eu descia para rua para tentar imitá-lo na ‘travinha’ diária com os amigos. Para fazer um gol entre os chinelos e sair gritando: “Ronaaaaaaldo!”.

Suas contusões, quase sempre graves, me entristeceram ao longo desse período. Mas com uma força de vontade incrível, ele voltou. Como em 2002, e escreveu um dos capítulos mais felizes da minha vida como torcedor de futebol. Ver o “Fênomeno” com visual de Cascão, outro personagem de infância, balançar as redes duas vezes naquela manhã de domingo, dia 30 de junho, é algo que jamais sairá de minha memória.

Quatro anos mais tarde, em mais uma copa, o cenário era outro. Muitos o criticaram duramente. Óbvio, chegou com mais de 100 kilos e o Brasil sucumbiu diante da França. Motivos não faltavam para uma cobrança forte. Mas confesso que, em todos esses anos, não aprendi a ‘não gostar do Ronaldo’. Apesar deste momento também ter marcado minha história de torcedor. Era a primeira vez que via uma Copa do Mundo e a Seleção Brasileira não chegava a final. Foi um sentimento estranho, de incredulidade. Mas ainda assim não consegui ‘detestar’ o Ronaldo. Até porque até em um momento adverso, ele conseguia ser marcante, pois se tornava o maior artilheiro de todas as copas, com 15 gols.

Nem mesmo sua volta para o Brasil para treinar no Flamengo, um dos maiores rivais do meu clube de infância, ou até mesmo para jogar no Corinthians, meses depois, conseguiu fazer nascer em mim qualquer sentimento de raiva. Não só não mudou nada na minha admiração, como saí de Vitória e fui ao Rio de Janeiro assistir ao duelo entre Mengão x Timão no Maracanã só para o ver de perto. Viagem frustrada. Ele não jogou. Estava machucado. Novamente, assim como em 96, no Araripe, tive a decepção de não poder vê-lo jogar ao vivo. Porém, no meu pensamento, ainda teria essa oportunidade.

2009 se foi, 2010 também passou, e o “Gordo” foi jogando sob críticas pesadas em relação a seu peso. Não dá para negar, também já fiz piadas. Mas meu respeito por ele sempre foi muito maior do qualquer 100 kilos na balança. E não é demagogia. Quem convive comigo, sabe. Neste domingo a noite, ao ler a notícia de que ele iria anunciar sua aposentaria na segunda-feira, me lembrei que o tempo de vê-lo ‘ao vivo’ tinha se esgotado. Bateu tristeza.

Assistir um ídolo chorando e dizendo que perdeu a batalha para o seu corpo é muito triste. E hoje, 14 de fevereiro de 2011, posso dizer que tive o prazer de ver toda essa história sendo escrita. Depois de 17 anos ‘ao seu lado’, é com muita tristeza que não poderei mais ver Ronaldo me alegrar com jogadas e gols geniais. O Fênomemo sai dos gramados para entrar no hall dos monstros sagrados do futebol. E de uma coisa eu tenho certeza: se primeiro os joelhos, e depois a tireóide, tentaram te tirar ele de cena, foi certamente porque nunca tiveram olhos para assisti-lo brilhar. Obrigado por tudo, meu ídolo!